Essa divagação surgiu de uma conversa num bar pé-sujo (ou melhor, pé-imundo) no Rio de Janeiro, entre alguns amigos amantes de Cinema.

A discussão era sobre filmes e livros épicos tão amplos que criam universos imensos para abrigar suas tramas. O primeiro a ser tratado na discussão foi Senhor dos Anéis, obviamente. Tolkien era um cara muito cabeçudo e sagaz, além de ser lingüista e especialista em Literatura. Também vinha a ter uma imaginação hiper-fértil, somada a profundos conhecimentos sobre mitos e arquétipos da narrativa épica. Enfim, um cara esperto.

Graças a essa intimidade com a linguística e com o mundo acadêmico, Tolkien construiu uma complexidade enorme para o ambiente onde passam as histórias criadas por ele. A ponto de muitos, inclusive eu, em algum momento, se perguntarem: Pra que raios se dar o trabalho de inventar o nome científico da erva fumada pelos Hobbits do Condado?

Vamos por fases, porque por partes é clichê. Primeira coisa, a mais fundamental pra entender a loucura de caras como Tolkien, é entender a natureza da arte pra esses caras. Pra que se dar o trabalho de descrever as lendas dos antepassados dos anões? A pergunta na verdade é bem mais simples: pra que se dar o trabalho de sequer escrever uma história? Não precisamos delas para sobreviver, teoricamente. Precisamos, sim, para satisfazer uma ânsia impossível de traduzir, que é saciada pela música, filmes, livros, ou o que seja.

Assumindo isso como verdade, podemos parar de nos perguntar a razão pela qual o cara escreve aquilo, e passmos a perguntar: Por quê não escrever uma história mais simples, se mesmo histórias menos ambiciosas podem ser boas?

Aí entra uma discussão bem mais bizarra, pois envolve, além de tudo, gosto pessoal. O que faria alguém gostar mais de ler Senhor dos Anéis, com seu universo mega-amplo, do que ler A Metamorfose, com sua narrativa minimalista? O que acontece de diferente nas duas?

Um elemento que pode resumir a diferença é a justificativa da história. Senhor dos Anéis é uma história típica, com um herói e sua missão de salvar o mundo que está em colapso, para restaurá-lo do jeito que era no início. Se vocês pensarem, essa “fórmula” se aplica a milhares e milhares de histórias, não importando a mídia. O objetivo de uma história como essa é a imersão de quem lê. Ela não precisa “revolucionar”, nem quer mudar o mundo. Pode até acontecer, mas vai ser consequência da leitura e do entretenimento.

Uma narrativa como A Metamorfose de Kafka quer, antes de entreter, discutir algum ponto importante externo à história. Isso soou altamente difícil, até eu vou ter que reler pra entender melhor o que escrevi. ….

Ah, sim.

O que quis dizer, é que ele tinha o objetivo de lançar um olhar sobre a sociedade que estava se formando naquele fim de século XIX início do XX. Tolkien, no prólogo da Sociedade do Anel, diz, com todas as letras, que sua história não tem qualquer conteúdo de crítica política, social, ou whatever.

PORRA TOLKIEN! Tu estudou até Geografia, mano?

O que concluímos disso tudo? Provavelmente nada, mas se você vasculhar nos escombros do seu neurônio, pode parar e pensar o seguinte: Se uma história quer afogar o leitor nela, pra fazer com que ele se desloque completamente do mundo real, criar uma complexidade maior para o universo dela pode ser uma ótima maneira de fazer isso. Lógico que não caberia fazer isso em narrativas de proporções menores, como histórias infantis, por exemplo. Prova disso é que Tolkien escreveu O Hobbit antes de muitas coisas que desenvolveu sobre o universo de Arda e Middle Earth.

Senhor dos Anéis leva o gênero épico/mitológico a escalas tão épicas, que os detalhes são importantes para garantir a verossimilhança da história. E também para fazer adolescentes babarem com a descrição das espadas forjadas em Gondor.

Na próxima parte, uma comparação desse universo literário com um universo de origem cinematográfica.

Que a força esteja com vocês!

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